PF Legal Por: Valacir Marques Gonçalves
Mais uma vez chegamos ao fim de um movimento paredista sem vermos atendidas as nossas reivindicações. As perguntas são inevitáveis: A greve foi um fracasso? Os grevistas foram vencidos? As respostas revelam o que estamos cansados de saber: os nomes e sobrenomes dos nossos adversários. Respeito opiniões em contrário, mas acho que elas poderiam ser feitas sem a finalidade de buscar culpados, vilões… Divisões e rachas são tudo o que não precisamos – é fácil perceber quem quer manter a Polícia Federal ultrapassada, carcomida pelo mofo e parada no tempo.
Infelizmente, as pessoas que estão à frente do governo ainda não perceberam isso. Elas foram convencidas de que na Polícia Federal existe somente uma disputa por dinheiro e poder. É duro lutar contra essa mentira, mas não devemos ficar abatidos, o movimento grevista foi apenas mais um capítulo da nossa luta. A história ensina que as velhas estruturas, principalmente as que proporcionam reservas de mercado para grupos que delas se beneficiam, custam a cair, pois estão sempre aliadas ao poder, não importa a ideologia…
É difícil entender o motivo do descaso em relação à segurança pública. O país é referência em áreas estratégicas, como o sistema bancário, o recolhimento de impostos, e o processo eleitoral, hoje com um nível de excelência tão grande que causa inveja a países altamente desenvolvidos. Mas, quando o assunto é segurança, acham que é uma área que não merece prioridade… A prova disso é o caos mostrado pelos veículos de comunicação: uma população aterrorizada, humilhada, vivendo atrás de grades, e os bandidos na rua, trucidando quem ousa enfrentá-los. O deputado Tiririca disse um dia: “Pior do que está não fica!”. Estava enganado: fica! Agora estão assassinando mulheres grávidas e até bebês de colo…
Na PF, enquanto seus administradores estiverem preocupados com a manutenção do modelo ineficiente que cultuam tal qual um dogma, eles não entenderão que é inadmissível uma polícia nacional conviver, entre outras mazelas, com salários defasados, falta de planejamento, e até com atribuições usurpadas, o que dá origem a uma triste perda da autoestima.
É desolador ver policiais abandonados à própria sorte em fronteiras escancaradas para todo tipo de irregularidades. Até quando investigações continuarão sendo monopolizadas por uma minoria bem intencionada, mas inexperiente? Até quando continuarão emperrando o sistema, banalizando a injustiça?
A história não reserva lugar a quem se acomoda. Peço aos companheiros que aderiram à greve que não se sintam derrotados, pois enfrentaram um sistema (ainda) forte, com representantes em todos os lugares de mando, e outros que influenciaram a opinião pública contra o movimento. Aos que pensam que derrotaram os grevistas; aos partidários de mudanças que deixam tudo igual, lembro que não somos melhores nem piores do que eles. Somos iguais: melhor é a nossa causa…
A cartilha distribuída ao final da greve precisa ser o início de uma mudança. Fico emocionado quando ela é usada, pois há muitos anos “fiz uso” da mesma… Saí de manhã de Porto Alegre para Brasília e voltei no voo da noite por ter me recusado a cumprir missão fora das normas; noutra, não aceitei receber “meia diária”. Recebi o exigido, não sem antes ser acusado publicamente de “mercenário”…
Hoje, em plena democracia, as normas não podem ser esquecidas. Os policiais federais devem viajar sem o pagamento antecipado como manda a lei? Arriscar suas vidas em operações com planejamento inadequado? Usar viaturas sem segurança? Admitir falta de treinamento e reciclagem na Academia, e por aí afora? O encerramento da greve não é o fim de nada, é um recomeço da busca por dignidade.As eleições na FENAPEF estão aí, elas precisam ser discutidas. Mas não se enganem: quem não comparece em assembleias, não está nem aí para eleições, quem só pensa em “faturar” diárias, quem está na PF de passagem, e tantos outros comportamentos que ajudam a perpetuar o caos, não vai mudar – não importa o modelo. O voto eletrônico no meio sindical é um avanço, mas a conscientização sobre os problemas precisa chegar junto, não adianta apenas substituir a maneira de votar.
Finalizo pedindo aos companheiros que afastem o desespero que costuma bater à porta na hora em que tudo parece dar errado – ele acaba deixando a maioria conivente com toda essa porcaria. Não podemos permitir que o não atendimento das reivindicações transforme policiais idealistas, que amam o seu ofício, em gente com vontade de arranjar uma desculpa para não ter que reagir, para não ter que lutar! PS: “Não se venda, você é tudo o que tem!” (Janis Joplin)
Valacir Marques Gonçalves é gaúcho de Bagé. Formado em Jornalismo e Direito, com especialização em Cooperativismo e Jornalismo Sindical. Sócio fundador do Sindicato dos Policiais Federais do Rio Grande do Sul, onde foi um dos criadores e incentivadores do Jornal “Modus Operandi” e do site da entidade. E-mail: vala1@uol.com.br. Blog: http://www.valacir.com/
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