Ninguém ganhou, ninguém perdeu Por: Valacir Marques Gonçalves
Falar sobre o Garisto é um desafio. Olhar com imparcialidade um ciclo é algo que precisa ser feito com o devido distanciamento histórico, pois certos acontecimentos só são entendidos muito tempo depois. Mesmo correndo esse risco, não posso deixar de comentar a influência desta figura emblemática em nosso meio, e do tipo de liderança exercida por ele no movimento sindical da Polícia Federal.
Tive com o Garisto períodos de aproximação e de distanciamento. Estivemos próximos em muitas paradas e nos distanciamos em outras. Gastamos o português com elogios mútuos, mas também garimpamos os piores insultos para trocarmos quando nos desentendemos, o que fizemos sem a menor cerimônia – foi um equívoco. Acabamos percebendo que isso não levaria a nada. Que a causa que defendemos é maior do que qualquer sentimento inferior que tenhamos cultivado.
Vou tentar ser historiador, e até profeta. Dizem que ser historiador é fácil, que difícil mesmo é ser profeta. Vou me permitir fazer os dois exercícios: como “historiador”, na condição de protagonista, porque privei com o personagem mais até do que com a pessoa… Como “profeta”, porque vivo o sindicalismo na Polícia Federal desde o seu nascedouro – moro na aldeia, tenho a pretensão de conhecer os caboclos…
Como historiador, digo que, queiram ou não, o Garisto marcou uma época. Com outros idealistas, fundou o Sindicato de São Paulo e foi figura marcante no nascimento da Fenapef. Foi capa de revista (por duas vezes) de circulação nacional, com entrevistas esclarecedoras e corajosas. Foi também entrevistado por uma celebridade do porte do Jô Soares. Foi algo significativo, feito com inteligência e dignidade – não é coisa para qualquer um. Foi ouvido no Congresso Nacional por senadores e deputados. Enfrentou muita gente e, por isso, respondeu a vários processos. É claro que posso apontar algumas atitudes dele que desagradaram muitos, inclusive a mim. Não vou fazê-lo, certos movimentos fazem parte do jogo, ninguém consegue contentar a todos quando o cargo ocupado proporciona tantas oportunidades de confronto, com reivindicações envolvendo interesses conflitantes.
Na condição de “profeta”, minha análise é outra. Tivemos agora mais uma eleição para a diretoria da Fenapef. Duas chapas foram constituídas com nomes importantes do sindicalismo. Policiais federais de todas as regiões exerceram o direito de escolher os dirigentes da nossa Federação. Minha profecia é de que as pessoas importantes que concorreram dar-se-ão conta de que a eleição acabou. Que ninguém ganhou ninguém perdeu – vencemos todos. Como disse um dia Tancredo Neves, “não podemos nos dispersar”. Precisamos acreditar que sindicalistas da estirpe dos que formaram as duas chapas lutarão juntos em busca da PF que sonhamos.
Finalizando, reafirmo que o Garisto marcou uma época. Com certeza a história o julgara, pois isso sempre acontece com todos que tentam mudar estruturas ultrapassadas, carcomidas pelo mofo. Quanto aos novos dirigentes, eles terão a oportunidade de escrever as suas histórias também, com um jeito próprio, nem melhor, nem pior, diferente. Certamente dirão a eles que é impossível mudar as coisas que precisam ser mudadas. Afirmo aos nossos futuros dirigentes que isso não é verdade. Que os sábios ensinaram para quem quis aprender que “impossível não é um fato; é apenas uma opinião…”.
Valacir Marques Gonçalves é policial federal
e-mail vala1@uol.com.br blog www.valacir.com
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