Sinpef/MT cobra CPI e independência da PF

Entrevista

Para combater mais de 15 tipos de crimes, alguns que precisam de mais de um ano de investigações, a Polícia Federal (PF), de Mato Grosso só conta com 332 funcionários. Cerca de 100 são agentes administrativos que trabalham no setor burocrático. Os outros 232 são agentes (investigadores), delegados, papiloscopistas e peritos criminais. Os PFs não querem apenas melhores salários. Mas sim ganhar um salário igual ganham os policiais da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que recebem  R$ 13 mil no início de carreira, e R$ 18 na aposentadoria. Hoje um PF ganha R$ 7 mil no início e R$ 12 mil no final de carreira. Os PFs querem também uma mudança radical nas condições de trabalho. Os agentes, os escrivães e os papiloscopistas, por exemplo, querem autonomia e independência para investigar sem a interferência dos delegados e, principalmente sem dar satisfações ao Governo, principalmente a ministros. Os PFs afirmam que são especialistas em investigações. Especialistas em decifrar e codificar as conversas gravadas em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, coisa que os delegados tem dificuldade, pois desconhecem os códigos e e as gírias dos bandidos.

Os policiais federais: agentes, escrivães e papiloscopistas querem se livrar de muitas “amarras”, entre elas a liberdade para investigações longe dos olhares dos delegados. Querem uma “Inteligência” livre, feita por policiais especializados em investigações preventivas e ostensivas. Ou seja, os PFs querem evitar que os crimes aconteçam, e não como está agora, quando eles tem que correr atrás dos prejuízos. Eles não querem andar atrás, mas na frente dos crimes e dos criminosos, e não depois que o crime já aconteceu. Para eles, isso não é Polícia.

Cuidar de índio, combater os tráficos nacional e internacional de drogas. Fazer segurança de autoridade. Fazer transferência de presos federais. Combater o tráfico de animais, de armas, de seres humanos de crianças, de prostituição infantil. Combater constante aos grandes roubos a banco e investigar o conhecido crime do colarinho branco com rombos bilionários entre roubos, furtos. Acompanhar as gravações de escutas telefônicas, leitura e codificação das escutas. Combater a lavagem de dinheiro e as formações de quadrilhas. Crimes cujas investigações muitas vezes demandam mais um ano, pois geralmente são cometidas por políticos, altas autoridades do Governo e empresários. Sem contar que eles (os PFs), ainda são responsáveis pelos plantões das sedes e dos postos da Polícia Federal em todo o País.

Em Mato Grosso, a Polícia Federal cuida de uma área imensa que vai desde a Baía Gayva, na fronteira com Mato Grosso do Sul (MS), até a foz do Rio Cabixi, na fronteira com Rondônia (RO). Sem contar com os mais de 700 quilômetros de fronteira seca entre o Brasil e a Bolívia.

Muitas vezes a Polícia Federal (PF), é obrigada a mostrar uma realidade que não existe. Faltam homens, sobram coragem, determinação e inteligência. Com um efetivo que beira menos da metade do que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) projetou para o final da década de 60. Ou seja, há quase 50 anos atrás, quando a PF já precisava de 15 a 20 mil  homens.

Hoje, quase 50 anos depois, a PF não consegue emplacar 12 mil policiais em todo o País. Hoje, na realidade, a Instituição precisaria, de no mínimo, de 30 a 35 mil homens, entre delegados, escrivães, investigadores (agentes), papiloscopistas e peritos.

Os PFs ligados diretos às investigações como agentes, escrivães e papiloscopistas de Mato Grosso querem melhores salários, pois trabalham como nível superior e recebem como nível médio. Querem, principalmente que os delegados da PF deixem os agentes, escrivães e papiloscopistas trabalherem nas investigações. Querem que os delegados cuidem da parte de prisões após as investigações, com flagrantes ou mandados de prisões temporárias e preventivas, além das buscas e apreensões.

Por incrível que pareça, os PFs mato-grossenses e brasileiros ainda querem que os políticos assinem a CPI da Polícia Federal para que a instituição seja passada a limpo. E isso com muita urgência.

O presidente do Sindicato dos Policiais Federais de Mato Grosso, Erlon Brandão, de 58 anos, abriu o jogo numa entrevista de quase duas horas ao Portal de Notícias 24 Horas Newes. Em uma conversa aberta, Erlon, não só tirou a “roupa” da Polícia Federal, como pediu para que os políticos de Mato Grosso e de todo o País assinem a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Polícia Federal, para que a instituição, uma da a das mais respeitadas do mundo seja passada a limpo.

“Entrevista exclusiva com Erlon Brandão, presidente do Sindicato dos Policiais Federais de Mato Grosso”

A REPORTAGEM

Reportagem – Quantos policiais federais existem hoje em Mato Grosso?

Erlon – Somos poucos, muito poucos mesmo. Só somos 332. Ou melhor, fora os 100 agentes administrativos que trabalham na burocracia e que não são policiais, na realidade somos apenas 232 e nada mais do que isso.

Reportagem – E quantos PFs trabalham por dia. No Estado?

Erlon – Menos ainda. Tirando os policiais de licença e os de férias, sobram menos de 200 homens para combater mais de 15 tipos de crime. Divida esses menos de 200 homens por três, pois são 24 horas de trabalho por 72 horas de folga. Veja, ai sobram pouco mais de 60 policiais para todo o Estado. Isso é ou não é um absurdo?

Reportagem – Em todo o País, quantos policiais federais existem? Erlon – Um pouco mais de 12 mil homens.

Reportagem – E quantos policiais federais seriam necessários em todo o País, hoje.

Erlon – Pelo menos 30 a 35 mil homens.

Reportagem – Não é muito?

Erlon – Não. Veja bem, quando o presidente do Brasil era o general João Baptista Figueiredo ele mandou o IBGE fazer um levantamento de quantos homens seriam necessários para que a Polícia Federal fizesse um trabalho a altura de suas tradições. Pois bem. O IBGE confirmou que naquela altura, há quase 50 anos atrás, a PF teria que ter no mínimo 15 mil homens. Hoje a PF teria que ter no mínimo 30 a 35 homens, mas ainda não tem 13 mil policiais. Ou seja, temos um déficit de mais de 20 mil policiais. Isso é um absurdo para um País que triplicou sua população. Para um País à beira de realizar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada.

Reportagem – Em Mato Grosso não tem 200 PFs trabalhando. Quanto nós precisaríamos?

Erlon – Mais de 1.000. Isso mesmo, mais de um mil policiais Com esse efetivo teríamos condições de colocar nas ruas e nas fronteiras, pelo menos 300 homens todos os dias.

Reportagem – Apuramos que em Cáceres (Oeste do Estado, a 220 quilômetros de Cuiabá), já existem 45 policiais trabalhando. Isso é verdade?

Erlon – Verdade. Aliás, 45 homens é o efetivo total. Por dia somos menos de 15 entre escrivães, delegados, agentes e papislocopistas.

Reportagem – Isso não é perigoso?

Erlon – Claro que é. É sim muito perigoso. Por isso não temos nenhum. Eu estou falando nenhum homem na faixa de mais de 700 quilômetros de fronteira seca. Mais um absurdo.

Reportagem – E quantos policiais seriam necessários para um policiamento pelo menos razoável?

Erlon – Pelo menos 100 por dia. Veja bem, a PF é responsável por milhares de quilômetros somente naquela região. Quilômetros que vão desde a Baía Gayva, na fronteira do Mato Grosso do Sul, até a foz do Rio Cabixi, na fronteira de Rondônia. É muita terra para poucos policiais.

Reportagem – O que é independência para a Polícia Federal?

Erlon – Não é somente independência. Nós, agentes, escrivães e papislocopístas não queremos a interferência de delegados nas investigações. Nós queremos preparar tudo para que eles só entrem em ação no momento das prisões.

Reportagem – Mas porque essa independência?

Erlon – Hoje já existe uma briga interna por causa disso. Os delegados não entendem nada de codificação de escuta telefônicas, além do que, eles também tem muito trabalho para fazer e escutas telefônicas demanda de muito tempo e muita paciência. Existem milhares de conversas codificadas, principalmente entre traficantes e políticos corruptos. Conversas que eles não sabem decifrar e nós somos especialistas nisso. Escutamos, codificamos, deciframos e fazemos o relatório. Eles querem impor, e não agora estamos deixando que eles façam tudo. Como eles não sabem, ou sabem muito pouco, isso gerou uma briga interna.

Reportagem – E o Ministério Público Federal (MPF)?

Erlon – Se não fosse ou não existisse o MPF. Eles estão sempre à frente de qualquer investigação e tem sido determinantes para as prisões de muitos figurões brasileiros que estavam sendo até “blindados” e virando “intocáveis”.

Reportagem – Essa independência da PF também pode atingir o Governo e as autoridades do Governo, até mesmo os ministros.

Erlon – Claro. A PF tem que ter independência para investigar seja lá quem for quando tiver que investigar. Senhor repórter. O senhor daria uma informação que é só sua para que outro jornalista dê o furo de reportagem que você quer dar? Claro que não. Investigação não pode vazar. Ministro, muito menos o Governo não tem que saber, muito menos se envolver em investigação. Se a PF tiver que informar para alguém sobre suas investigações, nunca mais vai prender ninguém.

Reportagem – Voltando lá atrás. Por que os PFs do Brasil não recebem conforme manda a lei. Lei que o Ministério do Planejamento reconhece como legítima e que determina desde 1996 os policiais federais sejam concursos com a exigência do curso superior. E os salários?

Erlon – Boa pergunta. Desde março de 1996 que foi aprovada e sancionada a Lei 9266, que exigia o curso superior para todas as carreiras da Polícia Federal. Só que, até hoje nós: escrivães, agentes, e papiloscopistas trabalhamos como nível superior, mas recebemos como nível médio. Outro absurdo inexplicável.

Reportagem – E como andam as armas, as viaturas e os treinamentos da Polícia Federal?

Erlon- Não temos o que reclamar do nosso armamento. É bom, como são boas as nossas viaturas. O treinamento também é bom, mas ainda precisa melhorar muito. Aliás, teríamos que treinar o tempo todo. Por isso, precisamos aumentar o nosso efetivo, pois o nosso povo e os nossos problemas aumentam dia a dia, minuto a minuto.

Reportagem – São mais de 15 crimes que a PF tem que investigar, e ainda por cima cuidar de índio e fazer segurança de autoridades que são ameaçadas de morte. Dá para fazer tudo isso ao mesmo tempo?

Erlon – Não. Não dá, mas ao mesmo tempo nós temos que fazer milagres. Temos dezenas, centenas de atribuições. Só não tempos homens para trabalhar. Por isso as fronteiras estão praticamente abertas. Sério, hoje nós teríamos que ter, no mínimo 30 a 35 mil homens para fazer um trabalho ainda melhor do que fazemos.

Reportagem – A PF está preparada para fazer a segurança da Copa do Mundo no Brasil em 2014?

Erlon – Com esse efetivo super-reduzido não dá nem para fazer a nossa segurança doméstica de hoje, quando mais para uma Copa do Mundo. É bom que as autoridades brasileiras fiquem atentas, pois vamos receber milhões de pessoas que vem assistir aos jogos, Além do que, vem também autoridades de quase todos os países do mundo. E isso aumenta ainda mais o risco até de um atentado terrorista, pois eles estão por todas as partes. Temos que trabalhar muito para não sermos surpreendidos. Isso é um alerta.

Reportagem – Para finalizar. É verdade que a Polícia Federal quer uma CPI do Congresso para investigar a Polícia Federal?

Erlon – Verdade. Por sinal aproveitamos para convocar todos os políticos da bancada de Mato Grosso e de todo o País que assine a CPI da Polícia Federal. Verdade. Queremos passar a limpo uma instituição que quer se manter digna de suas tradições, de sua garra de sua inteligência, de sua competência e do respeito como uma das mais sérias instituições policiais do mundo.

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